Circular Informativa nº 19, de 22 de março de 2020 – Gravidez e aleitamento materno (Recomendações Gerais)

Para: Hospitais, EPER, Unidades de Saúde de Ilha, Delegados de Saúde Concelhios e Linha de Saúde Açores (C/c Coordenadora Regional de Saúde Pública e Serviço Regional de Proteção Civil e Bombeiros dos Açores)

Assunto: COVID-19: Gravidez e aleitamento materno (Recomendações Gerais)

Fonte: Direção Regional da Saúde

Contacto na DRS: sres-drs@azores.gov.pt    

1. Ainda não é conhecido se o risco da grávida contrair ou de desenvolver doença grave por COVID-19 é maior do que o da população em geral. No entanto, sabe-se que as alterações imunológicas e fisiológicas da gravidez podem tornar as mulheres mais suscetíveis a infeções respiratórias virais, aumentando a morbilidade materna, o que pressupõe risco acrescido para a grávida e para a própria gravidez. Existe um caso reportado de uma grávida com COVID-19 que necessitou de ventilação invasiva às 30 semanas de gestação, tendo sido realizada cesariana de emergência[1]. Até ao momento, não se publicaram casos de óbitos entre mulheres grávidas.

2. As grávidas devem cumprir e reforçar as mesmas medidas de redução de contágio que a população em geral, nomeadamente: higiene das mãos, limpeza e desinfeção objetos e superfícies tocados com frequência, isolamento social e etiqueta respiratória.

3. Também ainda não se sabe se o COVID-19 poderá causar problemas durante a gravidez, se é transmitido ao feto ou ao bebé durante a gravidez ou no parto, ou se poderá afetar a saúde do recém-nascido. De acordo com a informação disponível até à data, nenhum bebé nascido de mãe diagnosticada com COVID-19 teve resultado positivo para o vírus, com exceção de um recém-nascido identificado como positivo 36 horas pós-parto[2].  No entanto, não foi possível confirmar se se tratou de um caso de transmissão intrauterina uma vez que as amostras de sangue do cordão umbilical e da placenta foram negativas para SARS-CoV-2 e, pelo contrário, não se pôde excluir a possibilidade de contacto pós-natal com o agente1. Até ao momento, não foi identificado o vírus no líquido amniótico, placenta, sangue do cordão umbilical ou no leite materno.

4. A decisão sobre o tipo de parto em grávidas com suspeita de infeção ou com COVID-19, deverá ter em conta as caraterísticas clínicas maternas e fetais, como em qualquer outra situação de gravidez, e não o facto de haver infeção, podendo ser ponderada a realização de parto vaginal ou cesariana, exceto se a situação respiratória da grávida implicar uma decisão emergente.

5. Não há evidência que justifique a evicção laboral de grávidas profissionais de saúde, mas deve haver o cuidado de seguir os protocolos atualmente indicados, particularmente aquando de contacto com um caso suspeito ou de doença. Nessas circunstâncias, as profissionais de saúde grávidas devem ter uma avaliação de risco e seguir as indicações protocoladas. O respeito pelas recomendações para a prevenção e as práticas de controlo são fundamentais para a proteção de qualquer profissional de saúde em ambiente clínico[3],[4] .

6. Não existindo atualmente evidência de que o vírus seja transmitido através do leite materno, e considerando os seus benefícios, não há indicação para suspender a amamentação, desde que as condições clínicas da mãe o permitam. O Centers for Disease Control anda Prevention (CDC) indica que a decisão de iniciar ou continuar a amamentação deve ser determinada pela mãe diagnosticada com COVID-19, em conjunto com os familiares e profissionais de saúde[5]. Também não existe evidência que suporte a necessidade de separar a mãe e o bebé. Se a mãe estiver muito doente, a separação parece ser a melhor opção, devendo recorrer-se a bomba para a extração de leite. Se a mãe estiver assintomática e o bebé estiver bem, poderá ser considerado pela mãe, em conjunto com os familiares e profissionais de saúde, manter o bebé com a mãe em isolamento durante 14 dias, promovendo a amamentação[6],[7].

7. As mães com COVID-19 que amamentam, uma vez que estarão a uma distância muito curta da criança, devem tomar todas as precauções possíveis para evitar transmissão do vírus: lavar as mãos frequentemente com água e sabão durante, pelo menos, 20 segundos, antes e depois de cada mamada; usar uma máscara facial durante a amamentação; evitar tocar na boca, nariz e olhos da criança; limpar e desinfetar os objetos e superfícies usados frequentemente. Se a mãe optar por expressar o leite com uma bomba manual ou elétrica, deve lavar as mãos com água e sabão antes de tocar em qualquer parte da bomba ou do biberão e seguir as recomendações para uma adequada limpeza e desinfeção da bomba após cada utilização. Sempre que a mãe esteja muito doente, esta deve ser incentivada a expressar o leite (e não dar diretamente à mama).

8. Conforme aplicável, as Unidades de Saúde ou os Hospitais devem contactar as grávidas para o devido agendamento das consultas/exames de vigilância da gravidez. Em situação aguda, as grávidas devem contactar o 112. Em caso de dúvidas, as grávidas devem evitar dirigir-se Hospital ou Unidade de Saúde e contactar a Linha de Saúde Açores – 808 24 60 24.

Considerando o aparecimento recente da COVID-19, importa salientar que estas recomendações são dinâmicas, evoluindo à medida que se obtém mais evidência.

Mais informação pode ser encontrada em http://covid19.azores.gov.pt.

Referências bibliográficas:

Centers for Disease Control and Prevention (2020). Pregnancy & Breastfeeding: Information about Coronavirus Disease 2019. Disponível em https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/inpatient-obstetric-healthcare-guidance.html, consultado a 19/03/2020.

International Society of Ultrasound in Obstetrics & Gynecology (2020). ISUOG Interim Guidance on 2019 novel coronavirus infection during pregnancy and puerperium: information for healthcare professionals. Disponível em https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/uog.22013, consultado a 19/03/2020.

Núcleo de Estudos de Medicina Obstétrica (2020). Risco de Infeção pelo COVID-19 em grávidas. Disponível em: https://www.spmi.pt/risco-de-infeccao-pelo-covid-19-em-gravidas/, consultado a 19/03/2020.

Rodrigues, C. & Barros, H. (2020). COVID-19: Gravidez e aleitamento materno in Da emergência de um novo vírus humano à disseminação global de uma nova doença – Doença por Coronavírus 2019 (COVID-19). Tavares, M. & Silva, C. (coord.). Disponível em http://asset.youoncdn.com/ab296ab30c207ac641882479782c6c34/4ffb57c54931cc3750db6196828a2e63.pdf, consultado a 19/03/2020.

Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (2020). Coronavirus (COVID-19) Infection in Pregnancy: Information for healthcare professionals (Version 3). Disponível em: https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/uog.22013, consultado a 19/03/2020.

Wang S, Guo L, Chen L, Liu W, Cao Y, Zhang J, et al (2020). A case report of neonatal COVID-19 infection in China. Clinical Infectious Diseases: ciaa225, https://doi.org/10.1093/cid/ciaa225, consultado a 19/03/2020.

Wang X, Zhou Z, Zhang J, Zhu F, Tang Y, Shen X. (2020). A case of 2019 Novel Coronavirus in a pregnant woman with preterm delivery. Clinical Infectious Diseases: ciaa200, https://doi.org/10.1093/cid/ciaa200, consultado a 19/03/2020.

Para mais informação:

Centers for Disease Control and Prevention – https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/prepare/pregnancy-breastfeeding.html

European Centre for Disease Prevention and Control – https://www.ecdc.europa.eu/en/novel-coronavirus-china

Ordem dos Médicos – http://ordemdosmedicos.pt/covid-19/

Royal College of Obstetricians and Gynaecologists – https://www.rcog.org.uk/coronavirus-pregnancy


[1] Wang X, Zhou Z, Zhang J, Zhu F, Tang Y, Shen X. (2020). A case of 2019 Novel Coronavirus in a pregnant woman with preterm delivery. Clin Infect Dis. ciaa200, https://doi.org/10.1093/cid/ciaa200.

[2] Wang S, Guo L, Chen L, Liu W, Cao Y, Zhang J, et al. A case report of neonatal COVID-19 infection in China. Clin Infect Dis. 2020: ciaa225, https://doi.org/10.1093/cid/ciaa225.

[3] International Society of Ultrasound in Obstetrics & Gynecology – https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/uog.22013

[4] Royal College of Obstetricians and Gynaecologists: https://www.rcog.org.uk/globalassets/documents/guidelines/coronavirus-covid-19-infection-in-pregnancy-v3-20-03-18.pdf

[5] Centers for Disease Control and Prevention: https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/prepare/pregnancy-breastfeeding.html; https://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/hcp/inpatient-obstetric-healthcare-guidance.html

[6] International Society of Ultrasound in Obstetrics & Gynecology – https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/uog.22013

[7] Royal College of Obstetricians and Gynaecologists: https://www.rcog.org.uk/globalassets/documents/guidelines/coronavirus-covid-19-infection-in-pregnancy-v3-20-03-18.pdf

Anexo: Circular Informativa n.º 19 de 2020

Translate »